Clareando
Resenha do texto “Linguagem, língua, linguística” de Margarida Petter
O texto “Linguagem, língua, linguística”, de Margarida Petter, inicia com duas epígrafes (página 11). Através delas, Petter fundamenta sua tese de que a palavra (linguagem verbal) tem poder. As duas epígrafes relatam sobre a teoria de origem do mundo na perspectiva de duas culturas diferentes, em épocas diferentes, porém, nas duas, é possível notar que, através da palavra, o mundo fora criado. Com essa jogada de palavras e conceitos antigos, ela consegue cativar a atenção do leitor para seu texto.
Na primeira epígrafe, se diz que “a Palavra (Kuma) era um atributo reservado a Deus, que por ela criava as coisas”. Na segunda, um trecho de Gênesis (Bíblia) é citado: “E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu”. Com esses exemplos, a autora considera a linguagem verbal como “a matéria do pensamento e o veículo da comunicação social”.
A fala é a concretização da língua e é influenciada por culturas, sociedades, histórias, visões de mundo. “Assim como não há sociedade sem linguagem, não há sociedade sem comunicação”, comenta Petter. A palavra pode nomear coisas e pessoas, criar histórias, transformar conceitos, trocar experiências, lembrar-se do passado, imaginar o futuro, experimentar relações, comunicar-se, ou seja, a palavra tem poder.
Continuando sua análise, a estudiosa cita uma breve história do estudo da linguagem, passando pelos gregos, latinos, pela Idade Média, até chegar à Europa com Saussure. Através da obra Curso de Linguística Geral, escrita a partir de anotações dos alunos de Saussure, publicada em 1916, funda-se a ciência da Linguística. Então a autora entra para o segundo tópico: “O que é a linguagem?”. Nele ela discute o estruturalismo e o gerativismo.
Segundo Petter, Saussure considerou a linguagem como heteróclita (não dá para se legislar) e multifacetada (várias faces). Heteróclita, porque não é possível dizer aonde a linguagem chegará, pois ela se desvia e não segue os mesmos caminhos. Multifacetada, pois se apresenta de várias formas, como na arte, na matemática, nas placas, nos sinais, entre outras. Saussure separa a língua (sistema de signos) como objeto de estudo, deixando de lado a fala em seus estudos. Para o estudioso, a língua é produzida pelo corpo (físico, fisiológico e psíquico) e é individual e social, depositada no cérebro dos falantes. “Para o mestre genebrino, a Linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma” (p. 14). Dos estudos saussurianos se originou o Estruturalismo.
Já Chomsky trouxe uma nova concepção aos estudos linguísticos. Ele trouxe a concepção de língua natural, que abrange os seguintes conceitos: “toda língua natural possui um número finito de sons” e “mesmo que as sentenças distintas da língua sejam em número infinito, cada sentença só pode ser representada como uma sentença finita desses sons (ou letras)” (p. 15). Chomsky questiona o que é sentença e o que não é, ou seja, a organização específica, sintática. O estudioso distingue competência de desempenho, sendo a competência “a porção do conhecimento do sistema linguístico do falante que lhe permite produzir o conjunto de sentenças de sua língua” e desempenho o “comportamento linguístico, que resulta não somente da competência linguística do falante, mas também de fatores não linguísticos de ordem variada” (p. 15). Partindo dos estudos de Chomsky, tem-se a base do Gerativismo.
A autora continua seu texto com mais quatro tópicos: “Existe linguagem animal?”, nesse tópico, Petter discute a comunicação das abelhas e as diferenças entre linguagem animal e linguagem humana; “O que é Linguística?”; “Gramática: o ponto de vista normativo/descritivo”; e “Linguística: o ponto de vista descritivo/explicativo”. Cada um deles trazendo informações importantes para quem deseja entender a Linguística, tarefa que pode ser árdua.
Através de uma leitura simples e clara, Petter alcança o objetivo de tirar a névoa que pode vir à mente quando se escuta a palavra “linguística”. Para um estudante de Letras, o texto é de suma importância, é a base para a Linguística.
Margarida Maria Taddoni Petter é professora livre-docente do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo, onde ministra cursos de linguística geral e africana. Fez mestrado na Universidade de Abidjan, e doutorou-se na Universidade de São Paulo. Dirige o Grupo de Estudos de Línguas Africanas da USP - GELA.
Bibliografia:
PETTER, Margarida. “Linguagem, língua, linguística”. In: FIORIN, José Luiz (org.). Introdução à Linguística I: Objetos Teóricos. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2010, p. 11-24
https://uspdigital.usp.br/tycho/CurriculoLattesMostrar?codpub=47A0B16FE314
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