Cristã vegana - parte II

Sobre o complexo de superioridade que o homem tem sobre os animais, penso em Eclesiastes três. Somos melhores que os animais segundo Salomão? Nesse capítulo ele fala que há tempo para tudo e a partir do dezoito ele diz: “Disse eu no meu coração, quanto a condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó. Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra? Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?”. Portanto, somos tão diferentes assim? Se temos sistemas nervosos semelhantes, se sentimos tantas emoções iguais. Sim, somos a obra prima da criação, sim, somos templo do Espírito Santo, sim, somos racionais, mas Deus ama toda a sua criação e há vários versículos na Bíblia sobre o cuidado de Deus com Ela, não apenas com os animais, mas com os mares, as plantas e tudo que Ele criou e viu que era bom. E como Samuel diz, “há tempo para tudo” e foi-se o tempo em que era necessário o consumo de carne para a sobrevivência humana (é claro que estou generalizando, porque infelizmente pela maneira que as riquezas são distribuídas no mundo, em muitas regiões ainda seria necessário o consumo de animais por falta de alimentos, mas esses casos são exceções). 

Em Isaías também se fala um pouco disso. No capítulo 11 do 6 ao 10 quando se pensando na nova Jerusalém se fala: “E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar. E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso”. Jesus quando viesse eliminaria todo o mal porque a terra se encheria de conhecimento do Senhor e o matar para comer é considerado como mal. No capítulo 65: 17-25 se diz a respeito da nova Jerusalém outra vez e no versículo 25 ele dá a ideia de que matar para comer carne é uma ação destrutiva e má de novo, pois: “O lobo e o cordeiro se alimentarão juntos, e o leão comerá feno, do mesmo modo que os bovinos se alimentam, mas pó será a comida da serpente! Ninguém fará o mal, tampouco praticará qualquer tipo de ação destrutiva em todo o meu santo monte!”. Isaías 1. 11 e 15: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo”. Isaías 66.3: “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações”. Percebe-se, portanto, com esses versículos que “os novos céus e a nova terra” não terá sofrimento animal ou o consumo deles. Se oramos para que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como no céu, por que continuar com a pecuária? 

Em Provérbios 15: 17 diz que “Melhor é a comida de hortaliça, onde há amor, do que o boi cevado, e com ele o ódio”. Acho que esse versículo já fala por si só. 

Por fim, lembro-me de Daniel e seus companheiros que comeram apenas legumes e que estavam mais fortes do que todos que comeram das iguarias do rei. Em um contexto no qual se tinha legumes em abundância, a carne não era necessária e somente com uma alimentação baseada em vegetais eles conseguiram ficar bem e ainda mais fortes. E talvez você pode me falar que Deus estava com ele por isso que aconteceu assim, mas por acaso Deus não estará comigo e com todos que decidirem seguir um plano alimentar que seria o original e mais adequado, principalmente hoje em dia, para nossa alimentação? Existem vários estudos, vídeos, análises e provas de que o consumo de animais hoje traz mais malefícios do que benefícios, seria tão errado querermos cuidar melhor da nossa saúde e do nosso corpo que é o próprio templo do Espírito? 

Existem outras passagens que eu abrangeria aqui do velho testamento, mas esse texto se tornaria um livro se eu fosse colocar cada versículo desse assunto aqui para discutirmos. Portanto, entro agora no novo testamento. Antes, quero lembrá-los que ainda estamos falando de mais de dois mil anos atrás, portanto a cultura, nutrição e sociedade (na verdade muitas outras coisas mais), eram diferentes. Por exemplo: Não se tinha um hortifrúti em cada esquina, por muitas vezes eles tinham que andar distâncias enormes e não conseguiam levar uma plantação inteira com eles, mas conseguiam levar animais, no deserto não existem plantações diversas e a cultura do consumo de carne já havia sido estabelecida. 

Pensando nisso, sim, Jesus multiplicou peixes! Era o que eles tinham naquele momento para se alimentar, mas o peixe provavelmente já estava morto, então Ele não causou mais sofrimento. E mesmo que Ele tenha consumido carne (sim, peixe também é carne!), era por uma questão de necessidade como já comentei no parágrafo anterior. O sacrifício de Cristo já tirou a necessidade de sacrifício animal, então falar que é “tudo bem” matar animais porque Deus permitiu sacrifícios é um absurdo uma vez que não é mais necessário fazer sacrifícios animais para redenção de pecados (nem para a alimentação). 

Em 1Co 4: 1-5 está escrito “Portanto, todas as pessoas devem nos considerar servos de Cristo encarregados dos mistérios de Deus. Além disso, o que se requer de todos aqueles que têm essa responsabilidade é que vivam fielmente. Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós, ou por qualquer tribunal humano; em verdade, nem eu tampouco julgo a mim mesmo. Porquanto, ainda que esteja consciente de que nada há contra mim, nem por isso me justifico, pois quem julga é o Senhor. Assim, nada julgueis antes da hora devida; aguardai até que venha o Senhor, o qual não somente trará à luz o que está em oculto nas trevas, mas igualmente manifestará as intenções dos corações”. Não devemos nos julgar, Jesus é aquele que revela as intenções dos corações, Ele nos conhece, e a minha intenção com a minha alimentação é diminuir o sofrimento da criação Dele que incluiu não apenas animais, mas os mares, a terra e os próprios seres humanos que são muito afetados negativamente pelo consumo de carne e talvez isso possa parecer incoerente, mas isso é porque o meio em que vivemos não nos ajuda a enxergar essa realidade. 

Em Romanos 8 do 19 ao 25 vemos o quanto o Senhor se importa com a natureza e ela terá novo papel e identidade no fim dos tempos: “A própria natureza criada aguarda, com vívido anseio, que os filhos de Deus sejam revelados. Porquanto a criação foi submetida à inutilidade, não por sua livre escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria natureza criada será libertada do cativeiro da degeneração em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade outorgada aos filhos de Deus. Sabemos que até hoje toda a criação geme e padece, como em dores de parto. E não somente ela, mas igualmente nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, esperando com ansiosa expectativa, por nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. Porquanto, precisamente nessa esperança fomos salvos. Contudo, esperança que se vê não é esperança; pois como pode alguém anelar por aquilo que está vendo? Porém, se esperamos por algo que ainda não podemos ver, com paciência o aguardamos”. A natureza se encontra em cativeiro, degeneração, geme e padece, seria tão anticristão assim eu querer diminuir tudo isso? 

Na Bíblia há uma legislação para escravos. Na época era aceitável. Hoje não é mais e não se veem cristãos defendendo a escravidão porque o povo de Deus no passado a praticava. Na Bíblia se vê o povo de Deus matando, hoje não é mais aceitável e os cristãos não usam a bíblia para defender a matança. Também se era permitido casar com várias mulheres, hoje, nós cristãos acreditamos que isso não é mais aceitável. Na bíblia diz que não se podia tocar em mulheres no seu período porque elas seriam impuras, hoje isso já não faz sentido, entre outras muitas regras e costumes que na época eram permitidos e hoje não é mais. Está escrito que devemos guardar o sábado, hoje guardamos o domingo. O que eu quero dizer com tudo isso é que a nossa diferença é que justamente conseguirmos raciocinar o que vamos levar para frente como sociedade, evoluímos pensamentos, culturas, melhoramos nossa ética e moral. Portanto, é injusto defender o consumo de animais pela bíblia porque o povo de Deus consumiu, sendo que o povo de Deus fez muita coisa que hoje não fazemos mais e até mesmo consideramos pecado algumas. Outra vez, antes era necessário, hoje não é mais. “Não matarás” não tem asteriscos dizendo que os animais podem matar, é simplesmente não matarás. 

Romanos 14 acredito que diz muito o que eu penso. Vou colocar ele aqui e meus comentários vou destacar no próximo parágrafo: “Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor. Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos. Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, E toda a língua confessará a Deus. De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão. Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda. Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja, pois, blasfemado o vosso bem; Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Porque quem nisto serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo. Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado”. 

Esse capítulo precisa ser compreendido à luz de 1 Coríntios 8. Como as duas cartas foram escritas na mesma década (1 Coríntios por volta de 54 d.C e, Romanos, 55 ou 56 d.C) e tratam do mesmo assunto, a mensagem do apóstolo consta problemas específicos daquela época (e até hoje). Quando se vê Paulo chamando os que comem legumes de fracos, ele quer dizer que quem não come a carne que antes tinha sido oferecida à ídolos é fraco na fé, pois Deus já abençoou o alimento. O apóstolo não poderia estar condenando a dieta vegetariana que é a ideal segundo a Bíblia (Gn 1:29) e muito menos dando permissão para comermos alimentos imundos (Lv 11; Dt 14), sendo que o próprio Paulo nunca comeu tais carnes (At 25:8). Ele mesmo ensinou que nosso corpo é o santuário do Espírito Santo (1Co 3:16, 17; 6:19, 20) e que, por isso, devemos cuidar de nossa saúde física, comendo de maneira que o Espírito seja glorificado (1Co 10:31). Glorificamos a Deus em nossa comida quando não comemos alimentos imundos (e outros alimentos impróprios) e não somos glutões. Se não fugirmos do conceito bíblico de “holismo” – ou seja, que a natureza humana é holística, um todo inseparável (1Ts 5:23, 24), não teremos dificuldades em aceitar que a Bíblia proíbe o uso de alimentos imundos e nisso creio que nós todos cristãos concordamos. Mas, o que quero focar aqui não é na dieta em si, mas que Paulo pede para que não julguemos a alimentação um dos outros, porque se eu creio que é errado e como, estaria condenando a mim mesma porque não estaria fazendo isso pela fé. Portanto, não é pecado comer carne ou alimentos vindos dos animais, mas na minha concepção não é justo e nem faz bem para o meu corpo, portanto não como. Cada um presta contas do que pensa, e é melhor estar com certeza. A Bíblia tem verdades irrefutáveis, mas em muitas coisas ela abre margem para que façamos de acordo com a nossa interpretação, e pelo que eu estudei tanto da sociedade e saúde, quanto da bíblia, não acredito que seja correto, justo uma alimentação à base de animais, nem para mim, nem para os animais, nem para o planeta terra e nem para os humanos em escala global. 

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