A paródia não parodiada

Resenha do conto Pierre Menard, autor do Quixote realizada para fins acadêmicos. 


Quando se é criança, uma das brincadeiras usadas para divertimento ou provocação é a brincadeira da repetição. Uma criança fala e a outra repete as mesmas palavras, porém em tons diferentes. Nessa brincadeira, portanto, um mesmo enunciado dito por enunciadores diferentes causa interpretações diferentes. Esse é um dos princípios presentes no conto do ilustríssimo Jorge Luis Borges: “Pierre Manard, autor do Quixote”, presente no livro Ficções (1944).

O escritor francês do século XX, Pierre Menard, tem uma obra com conteúdo cultural e prático, sem muitas coisas importantes, apresentada em listagem cronológica do item a ao s; entretanto essa é sua obra visível, a obra “ímpar” seria composta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte de Dom Quixote e de um fragmento do capítulo vinte e dois. O objetivo do francês não é recriar outro Quixote (o que, segundo ele, seria fácil), mas sim escrever o Quixote. Todavia, esse ato não seria uma cópia, seria “produzir algumas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes”. 

Em certo momento do conto, o autor compara o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. A análise é do seguinte trecho do capítulo nono:

...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.

Tanto Menard, quanto Cervantes escreveram o mesmo trecho, porém foi produzido em contextos diferentes, circunstâncias que o marcavam e contaminavam, portanto traz significados diferentes. Se lido na perspectiva do autor francês, o trecho tem um sentido mais crítico e rico em ficção, já segundo a perspectiva do castelhano, seria apenas um elogio retórico. Menard não queria copiar o Quixote de Cervantes, e sim, escrever a seu modo o Quixote de Cervantes, parodiando sem parodiar a obra. 

Através desse conto inovador (escrito em forma de crítica literária), Borges traz com humor e ironia questões que repercutem até hoje, como o plágio, apropriação, interpretação e a autonomia na leitura. Ele repensa o fazer literário e a própria literatura. Através de jogadas de discurso, é mostrado que um mesmo fragmento de texto associado a diferentes tipos de autores, causa tipos de leitura diferentes. De forma fictícia, o autor traz discussões reais, estudadas por diferentes tipos de profissionais, mudando linhas de estudos e pensamentos até os dias atuais. Uma leitura que sem dúvida instiga o leitor e o deixa fascinado pela genialidade de Borges.


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