A sociedade não perdoa

Em Lucíola de José de Alencar (romance de narrativa social urbana) há uma dialética entre o interior e o exterior, a alma e o “eu” em conflito com a sociedade. Embora não haja críticas sociais explícitas no romance, já que conta exatamente como a sociedade se comportava, com o olhar do século XXI é possível criticar algumas passagens do romance, já que muita coisa mudou do século XIX até agora. A história é ambientada em território urbano (Rio de Janeiro, 1855, Corte) e é contada por Paulo, um jovem da província de Olinda que acabou seus estudos e decide ir à Corte e seu envolvimento com Lúcia, uma cortesã muito conhecida na região. Provinciano recém-chegado à Corte, Paulo tem uma visão de mundo diferente dos que já estão inseridos naquele meio social há anos e isso transforma o rumo da história. 

Logo que chega ao Rio, Paulo vê uma mulher em uma carruagem com uma senhora e a chama de linda menina, e pura de alma. Sem ter uma “contaminação social” naquele momento, Paulo enxerga o interior daquela menina que ainda nem sabia o nome e não sua condição social. Mais tarde ele encontra a mesma mulher na Festa da Glória desacompanhada, o que já era motivo para que se percebesse que ela era uma mulher pública, pois somente tais mulheres poderiam ficar sozinhas em espaços públicos; porém, ainda inocente dos costumes da corte, Paulo a chama de “senhora” e somente mulheres respeitadas poderiam ser tratadas dessa forma. Sá, amigo de Paulo, frequentador de longa data da corte, o apresenta a mulher que tinha nome de Lúcia, mas antes o corrige dizendo que ela não é uma senhora, mas sim uma mulher bonita, isso faz com que Paulo perceba a “verdade” por traz dela: não era menina, nem senhora, mas sim cortesã. A sociedade, portanto, interfere como mediadora das impressões que Lúcia provoca em Paulo. Nessa passagem podemos perceber a maneira como as mulheres eram tratadas socialmente, só eram respeitadas se fossem casadas e ainda assim não podiam sair desacompanhadas; e mulheres públicas não mereciam respeito.

Posteriormente Paulo decide ir à casa de Lucia cortejá-la. Com o olhar da província, somente dessa forma poderia conseguir os afetos que ela tinha a oferecer; ao contar a Sá o que estava fazendo, é mais uma vez “corrigido”: cortesãs não são cortejadas, são simplesmente pagas para que ofereçam seus serviços. Isso faz com que Paulo mude a abordagem com Lúcia. Mais uma vez, percebe-se que mulheres públicas não deviam ser respeitadas, conceito ao qual Paulo se rende por ser um homem do seu tempo. Em outra passagem, na qual acontece uma festa na casa do Sá, Lúcia, para pagar sua entrada, é obrigada a fazer uma exibição nua imitando quadros famosos, o que escandaliza Paulo, mas a cortesã foi obrigada a realizar o ato contra a sua vontade, pois mulheres públicas não têm vontade própria, são objetos do público.

Depois de um mês que Paulo e Lúcia já se relacionavam, ele vai a uma festa e nela encontra Sá. Com a função de introduzir a visão da sociedade da Corte para o provinciano, Sá diz que as pessoas estavam comentando que Paulo estava se aproveitando das economias de Lúcia vivendo às suas custas, pois ela já não vestia roupas tão luxuosas e não frequentava aos teatros e não comprava mais vestidos e joias. A visão social mais uma vez interfere no relacionamento dos dois, pois isso ocasiona uma briga a qual Paulo pede para que Lúcia volte a esbanjar seu dinheiro para que a sociedade pare de caluniá-lo e ela, que sempre traz discussões fortes a respeito das exigências sociais, fica muito decepcionada e critica essa condição deixando Paulo sem palavras. Mesmo assim, ela volta às suas práticas luxuosas para o agrado de Paulo (a quem se devotava fielmente) para que ele não seja desmoralizado. Vemos então as exigências de uma sociedade capitalista e mais uma vez machista, em que uma cortesã conhecida deve esbanjar seus recursos e o homem não pode receber ajuda de uma mulher. Também mostra a devoção e dependência de Lúcia ao Paulo e sua devoção respeitando e cumprindo todas as suas exigências, o que hoje em dia causa espanto já que as mulheres buscam cada vez mais independência. Em certa passagem, Paulo vê Lúcia conversando com Jacinto e imediatamente a julga como traidora, mesmo a conhecendo e sabendo de sua devoção a ele; implicitamente tal passagem mostra a dupla moralidade de Paulo, ele não perdoaria totalmente Lúcia, e se nem ele conseguia perdoá-la completamente, quanto mais a sociedade. 

Incentivada pelo amor de Paulo, Lúcia quer se reintegrar no sistema social aceito, portanto quer sair do bordel para voltar ao lar, o que perturba a ordem do sistema, pois a sociedade permite que se saia do lar para o bordel, mas isso é uma rua de mão única, percorrer o caminho inverso não é aceito. Lúcia percebe isso e como não aceita, mergulha cada vez mais no seu interior e vai abandonando aos poucos seus atos de cortesã, até que não seja mais Lúcia, e sim Maria da Glória. Depois Lúcia vai para o campo com Paulo, longe dos olhares maldosos da sociedade, para cuidar da irmã e viver uma vida tranquila como Maria da Glória. O desconhecimento do seu passado pelas pessoas ao redor possibilita isso, até que um dia a segurança que tinha no campo é corrompida. A casa onde estava não tinha o poder de protegê-la dos julgamentos sociais, pois qualquer pessoa que a conheceu como Lúcia, se a encontrasse ali, levantaria a lama que já estava assentada no fundo do poço, relembrando o que ela tanto lutava para esquecer. O que acontece quando Couto a encontra entregando a uma moça um trabalho de crochê e exclama “– Não toques em coisa que pertence a esta mulher! é uma perdida!”, era como se Lúcia contaminasse qualquer moça “pura” pelo fato de ter sido cortesã. Ela teria que aprender a conviver com o corpo Lúcia e com a alma Maria da Glória, pois a sociedade nunca deixaria a cortesã desaparecer completamente. Trata-se, portanto de uma questão de hipocrisia, já que a sociedade permite que se saia de casa para o bordel, mas nunca do bordel para a casa, para a família, para o respeito; e também pelo fato de que Lúcia era boa e as pessoas a tratavam bem até conhecerem o seu passado e julgá-la por seus antigos atos, ela nunca poderia ser quem gostaria de ser no meio da sociedade.

Por fim, quando Lúcia revela que está grávida, constata de uma vez por todas que nunca seria completamente Maria da Glória, já que uma menina pura nunca teria um filho antes do casamento, o filho era a marca definitiva da cortesã. Seu desespero por ser fadada a cortesã por conta da gravidez é tão grande que isso afeta a criança, que morre dentro de seu ventre; o que acaba a matando também. Através da morte, o corpo de cortesã morre e a alma de Maria da Glória é liberta. A punição que tanto a sociedade quanto a própria Lúcia induzida pelos valores sociais deseja é finalmente realizada, pois somente a morte é a saída de uma sociedade que não te permite ser quem você quer ser, ela é o fim daqueles que lutam contra o sistema.

A questão de a história ser contada através de cartas a uma senhora denominada com G.M. também traz à tona mais um aspecto social. Paulo, por mais que pudesse se sentir culpado por tudo o que aconteceu com Lúcia, nunca poderia admitir tanto por sua posição, quanto pela posição que ela ocupava. Por isso as cartas que a exaltam: elas contam os detalhes e os acontecimentos nesse enredo para que entendamos que Lúcia tinha seus dois lados, os dois exaltados por ele; e também para que entendamos o seu lado (Paulo), já que não podia permitir que fosse mal visto pela sociedade. O lado inocente de Lúcia é relatado desde o princípio, o que faz com que cheguemos ao final com uma ideia de que mesmo Paulo não fazendo tudo o que podia por Lúcia, sempre a viu de maneira diferente o que o torna “herói e inocente”, mesmo sabendo de seus erros e ter se rendido aos valores impostos por uma sociedade cruel, já que, fazendo parte dela, não achava outra saída. A morte, para Lúcia, foi uma coisa boa, já que ela nunca seria capaz de ter uma posição “bem vista” na sociedade. E G.M., a senhora que publica as cartas, tem o nome de Maria da Glória ao contrário: Glória Maria, a Maria que já está na Glória. Por fim, Lucíola é um pedido de desculpas a uma pessoa que nunca seria desculpada em vida.

Desde que a sociedade é sociedade julga valores, dita o que é certo, o que é errado, criminaliza uma mulher que decide usar o seu corpo da maneira como bem entende, mas um homem que faz o mesmo, não é criminalizado socialmente. Quem não se encaixa no padrão que a sociedade molda, é menosprezado, deixado de lado; e ela é tão boa em impor conceitos que a pessoa inferiorizada pune a si própria, foi o que Lúcia fez: além de ser desprezada pela sociedade, despreza a si mesma por não se encaixar ao molde, até que isso a levasse à morte.

José de Alencar mostra em seu romance os valores de uma sociedade patriarcal, machista, capitalista e hipócrita, que desfavorece quem quer que não lhe agrade, criminalizando e penalizando o direito de liberdade de alguns (maioritariamente de algumas), não por mal, ou para levantar justiceiras após lerem o livro, mas porque era simplesmente como as coisas funcionavam. Na época em que o romance foi publicado (século XIX), nenhuma mulher se incomodou com o modo como Lúcia foi tratada, embora nem tudo esteja perfeito e ainda exista muita coisa a melhorar, como leitoras do século XIX é possível ler e questionar sobre alguns costumes da época e sobre os crimes e punições que eram dados. O crime de Lúcia foi por inocência vender seu corpo e mais tarde tentar voltar ao que era antes, mas, infelizmente, a sociedade não perdoa. 



*Análise da Obra "Lucíola" realizada para fins acadêmicos no primeiro semestre de 2017 em Literatura Brasileira.


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