Ruínas

A vida já era entediante o suficiente com luta, imagine sem... Minha mãe insistia que eu deveria desistir porque eu sempre chegava roxa em casa. Ignorei a falação dela e saí para mais uma aula. Eu fazia minhas aulas à noite, pois trabalhava de manhã e à tarde cuidava do meu irmão autista, pois minha mãe chegava somente no final da tarde e meu pai nos deixou a uns bons anos atrás. Mesmo que eu já chegasse na academia cansada, enquanto eu estava lutando todos os meus problemas desapareciam.

Eu comecei no Box há dois anos quando precisava extravasar o estresse de último ano da faculdade, depois adicionei o Muay Thai e estava prestes a iniciar minha primeira aula de Jiu Jitsu, deixando apenas duas noites da semana livres. Eu preferia assim, não tinha muitos amigos para sair à noite de qualquer maneira e ficar em casa não era a melhor opção. Clara, minha parceira de luta, não poderia ir hoje à aula por causa de um problema que deu na retirada do seu diploma da universidade. Nos formamos juntas em Contabilidade. Eu tinha sido esperta e peguei meu diploma assim que eles liberaram a data. Ela procrastinou e agora estava sofrendo as consequências disso. Eu não a culpo, procrastinar faz parte da nossa cultura.

O professor ainda não tinha chegado. Estava terminando de arrumar a faixa branca do meu Kimono quando mais três pessoas se juntaram à turma, uma delas era uma mulher e fiquei feliz que em um grupo de quinze éramos sete, porém os outros dois eram Marcus e Lucas. Eu tinha terminado um relacionamento de pouco menos de um ano com Lucas já fazia três meses. Ele tinha me traído com uma menina da academia, mas eu que fui a errada de não perdoar a traição e aceitá-lo de volta, entende? Marcus é um dos seus melhores amigos e também passou a me odiar. Masculinidade frágil é ridículo.

Uma mulher começou a puxar assunto comigo enquanto esperávamos. Perguntava-me se eu já lutava, se era minha primeira aula, essas perguntas para quebrar o gelo. Quando estava prestes a responder onde comprei meu kimono, o professor entrou. Não sei dizer se foi seu corpo impecável, ou seu jeito acanhado, ou seus olhos puxados, mas imediatamente o ar saiu dos meus pulmões e meu coração acelerou. Tentei disfarçar minha garganta seca e meu estado de transe para a mulher que imediatamente riu e disse “você é muito nova, é melhor achar outro”. Não respondi, só me virei para frente ainda me recuperando do impacto. Eu sei que você deve estar pensando que eu sou dramática, bom, eu sou mesmo. Percebi Lucas me olhando do outro lado da sala, o ignorei.

Nos alinhamos em fila para o início da aula e cumprimentamos o professor. Ele perguntou quem estava ali pela primeira vez e eu e mais outras duas meninas levantamos as mãos. Depois de um longo e pesado aquecimento, ele pediu para que eu e as outras novatas ficássemos em um canto da sala enquanto ele explicava algum movimento para o resto da turma que ouvia com atenção. As meninas conversavam entre si enquanto ele não chegava. Elas comentavam sobre algum Theo que estava na aula. Não soube identificar quem era, mas certamente era o amor platônico de uma delas pelo modo como comentavam. Talvez fosse o amor platônico das duas, quem sabe...

O professor se aproximou e começou a explicar alguns conceitos básicos do Jiu Jitsu. Eu já sabia a maioria deles por ter namorado Lucas, ele me ensinou bastantes conceitos e golpes, mas não me lembrava de muitos deles, pois sempre terminavam em beijos. Lembrar disso agora me faz querer vomitar. O professor deve ter percebido que eu me perdi nos meus pensamentos por um momento porque falou alguma coisa olhando para mim e as outras duas meninas riram. Não quis mostrar que não ouvi então ri também. Meu Deus, um homem perfeito na minha frente e eu lembrando do meu ex? Qual é meu problema?

Depois de passar alguns golpes e fazer com que a gente treinasse umas com as outras ele voltou para dar atenção aos mais avançados. Mais vinte minutos de treino e fomos liberados para tomar água. Avistei a... Como era o nome dela? Avistei a moça que puxou assunto comigo antes de começar a aula e fui até ela. Não fui nada sútil e já cheguei falando:

“Hey! O que você quis dizer com ‘você é muito nova’”?

A mulher sorriu e respondeu:

“Se te incomodou é porque você se interessou”.

Foi a minha vez de sorrir. Apenas dei de ombros e ela voltou a falar:

“Ele tem trinta e oito anos, querida. Você deve ter o quê? Dezenove?”

“Vinte e três”, respondi atônita com aquela informação. Eu juro que ele aparentava no máximo vinte e sete.

“Então... desencana! Além do mais, ele não fica com alunas. Muitas já estiveram na mesma situação que você e ele nem deu bola.”

Os cinco minutos para água acabaram e voltei para o canto das novatas. Outra vez esqueci-me de perguntar o nome da mulher. Continuamos praticando o exercício anterior até que o professor voltasse. Droga! Também me esqueci de perguntar o nome dele. Trinta e oito anos. Bom, eram quinze anos de diferença, mas eu sou muito madura para minha idade. Ai, quem eu quero enganar? É claro que era muito e eu não teria chance, mas às vezes é bom se iludir.

Ele voltou e começou a nos ensinar outro movimento, dessa vez com uma técnica de finalização por estrangulamento. Uma das meninas foi a cobaia e na hora dela praticar em mim, não estava conseguindo fazer da maneira certa. O professor entrou em cena e fez comigo a técnica. Ao finalizar tossi forte empurrando ele para trás. Realmente o jeito correto de se fazer era bem diferente.

“Você está bem?”

Eu poderia ter sido uma pessoa normal e respondido apenas “sim”, mas falei:

“Você nem me disse o seu nome e já vem me enforcando?”

Ele sorriu e respondeu:

“Raphael”.

Mal sabia eu que aquele sorriso seria o começo e fim de todas as minhas ruínas.

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